De cabelo preso por uma touca, eu já não sentia minhas pernas e nem o pequeno corte que o bisturi fez logo abaixo da barriga. A máscara de oxigênio no rosto não permitia que eu visse minha imagem refletida nas luzes da sala de cirurgia. De repente, um gritinho estridente: era meu filho que nascia, cedo demais, com menos de 32 semanas de gestação. Mal pude olhar para seu rostinho, pegá-lo então, nem pensar. Em poucos segundos ele foi tirado do meu campo de visão para ser entubado.
É, entubado. Por ser prematuro, meu filho precisou de ajuda para respirar nas primeiras horas de vida. As três injeções de corticóide que tomei alguns dias antes ajudaram a amadurecer o pulmãozinho do Victor, e então ele pode respirar sozinho poucas horas após o nascimento. Mas até então, os médicos não sabiam se teria funcionado.
Depois disso, tudo ficou nebuloso e a última lembrança que tenho é de meu marido saindo da sala de cirurgia. Acordei então em uma sala branca e fria, completamente sozinha, com um cobertor enorme sobre meu corpo – embora fosse 26 de dezembro, um dia típico de verão. E ainda assim, eu sentia muito frio. Dormi e acordei, diversas vezes, no mesmo lugar. De vez em quando sentia a presença de uma enfermeira. Mas foi só no início da noite que pude ir para o quarto.
Ainda sonolenta pelo efeito da anestesia da cesariana, só consegui finalmente conhecer meu filhinho durante a madrugada. Separado de mim precocemente, ele precisou ficar na UTI neonatal – onde permaneceu por 48 dias, até completar 1,800 quilo. Pois é, além de prematuro, o Victor nasceu com exatos 1,155 quilo – peso que nos primeiros dias caiu para 1,100 quilo, pois é normal recém-nascidos perderem alguns gramas no período de adaptação fora do útero.
Quando finalmente encontrei a encubadora com meu filhinho dentro, confesso que não sabia se teria forças para aguentar: ali, perdido no meio da encubadora, que não tem mais do que 50 centímetros, vi meu filho pela primeira vez, e um misto de alegria e dor trouxe mutias lágrimas aos meus olhos.Não conseguia controlar os soluços, e sozinha que estava, ninguém podia me consolar. Fiquei alegre por ver que aquele serzinho era meu e brigava para sobreviver. Mas triste, muito triste, porque havia tubos, fios e luzes por todos os lugares: da mãozinha saía uma agulha ainda mais fina que suas veinhas, responsável pelo soro que o hidratava. No pezinho, do tamanho exato de um chaveiro, um fio era seguro por um esparadrapo, responsável em controlar o nível de saturação: cada vez que aquilo apitava, uma enfermeira vinha correndo verificar o que estava errado. E na boquinha, entrando pela fenda do nariz – o Victor teve lábio leporino e fenda palatina – e descendo pela garganta, um tubo bem fininho para alimentá-lo: era a sonda responsável em fazer meu bebê ganhar peso.
A imagem do todo era assustadora e aquele tubo entrando pela fenda passava a impressão de que machucava sua boquinha. Mas a pediatra tentou me tranquilizar dizendo que era a forma mais fácil e segura dele ser alimentado. A sonda era recolocada todas as vezes em que por algum motivo – agitação ou teimosia mesmo – o Victor a tirava. Cerca de dez dias depois, mais forte e impaciente, o próprio Victor arrancava a sonda sozinho, período em que os pediatras decidiram que ele já estava forte o suficiente para se alimentar com o conta gotas…
Estou relembrando esse episódio porque o filho de uma amiga acaba de passar por uma cirurgia delicadíssima. Ele só tem dez meses e está na UTI pediátrica, não por complicações, mas porque esse é o procedimento nesses casos. E, queria que ela, assim como outras mães ou tias, tios, primos, que passam por essa situação ou pessoas que ainda venham a passar, saibam que essa sensação de impotência também passa. As crianças são mais fortes do que pensamos, e tiram esses obstáculos de letra. Na verdade, acho que até mais do que nós, adultos. Achoq ue é por isso que não conseguimos trocar de lugar…

que faz poucos dias que amamentava meu filho sentadinho no colo, quase em pé, para que não se engasgasse com o leite por conta da fenda no céu da boca. Mas já se passou um ano desde que Victor realizou sua segunda cirurgia, desta vez para correção da fenda do palato. Por conta desse aniversário, estivemos em Bauru, no 



